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Lenda da Sr.ª do Salto – Aguiar de Sousa

Autor: Augusto Luso da Silva, Professor do Liceu do Porto, naturalista e poeta.
Ano: 1874

Pela serra d’Abelheira
Montado em nédio corcel,
Leva seguida carreira
Um cavalheiro donzel.

A barba luzente brilha
Do orvalho que em gota cai;
Farceja veloz matilha
Que em roda saltando vai.

Não vê dez braças em frente
Com tamanha névoa assim!
Ouve saltar de repente
Os cães a latir! Enfim.

Rompe-lhe rápida lebre
Que ali lhe escapa do pé!
Deita a correr com tal febre,
Que nada teme nem vê.

A lebre corria a diante,
E ele atrás, sempre a correr.
Ia a cavalo ofegante
Já em suor a escorrer.

Ela ia de rabo alçado,
E o via seguir atrás,
Por Ter os olhos de lado;
Que fino que é Satanaz! (1)

Mas eis que chegando à beira
Daquele abismo...saltou;
E no inferno (2) matreira
Pelo rio se escapou!

Ele ia, enfim, sem receio
E cego, a bom galopar;
Não pode reter o freio,
Sente o cavalo a saltar.

E sente do ar a corrente
Que as faces cortar-lhe vem;
Vê-se suspenso e pendente
Sobre o abismo também!...

Valei-me Virgem Senhora,
Valei-me sou pecador;
Por mim não, mas por ela agora,
Que sois todo o seu amor (3).

E sem amor e abalo,
(Tal não se viu Nazaré), (4)
Firme se achou no cavalo
Na parte oposta, de pé!

Mui contrito e arrependido
Feria o peito co’a mão;
E se votou decidido
Da Virgem à devoção.

Mas para lembrança sua,
Daquele milagre ali
Tôsca ermida, pobre e nua,
Foi levantada por si.

Depois contava em segredo,
A que era do peito seu,
Como a Virgem lhe valeu.

Que ele d’ali se partia
Agora aos santos lugares
Mas que a Virgem os veria
Unidos em seus altares.

(1) – Satanaz feito lebre.
(2) - Referência ao inferno de Aguiar de Sousa.
(3) – Alusão à sua apaixonada que era devota da Virgem, enquanto ele mofava da creça dela.
(4) Referência ao lugar de milagre semelhante, Nazaré, no distrito de Leiria, onde, segundo a lenda, um cavalo formou um salto em direcção do mar, mas havendo o cavaleiro pedido socorro da Nossa Senhora, aquele susteve-se.