O Concelho de Coruche, devido à sua grande extensão
e riqueza, engloba no seu todo uma diversidade de usos e costumes
que são uma mescla dos hábitos e princípios
trazidos pelos primitivos colonos oriundos de outras regiões
do País. Esses colonos eram atraídos pela riqueza
do concelho e pela facilidade com que eram integrados no mercado
de trabalho local.
O Coruchense é um povo trabalhador e solidário com
o seu semelhante. Face crestada pelo sol da lezíria; dignidade
e nobreza estampadas no rosto, não provenientes do sangue
nem dos pergaminhos, mas que estão no coração
e nas maneiras. Homens sinceros da vila, da aldeia, do campo,
das lavouras, dos trabalhos. Gente que trabalha, que produz, activa
e honrada, que vive segundo a lei do dever e da consciência.
A mulher do campo, de pequena estatura, tinha pernas robustas
pelas longas caminhadas que era obrigada a percorrer para o local
de trabalho. Para além da lida doméstica, trabalhava
também no campo. Carregava à cabeça grandes
pesos e caminhava num passo rápido mas gracioso que fazia
dançar a roda das saias. Vestia ceroulas de ganga azul,
apertadas no joelho para poder arregaçãr as saias:
três saias, mais rodadas atrás do que à frente,
sendo a de cima de chita; uma blusa de quartinhos; avental; lenço
e chapéu de mescla garridamente enfeitado com uma fieira,
na qual segurava penas de pavão, fios de contas e pequenos
objectos; calçava canos e tamancos, usando sempre um talego
bordado a ponto de cruz.
O homem dedicava-se aos trabalhos mais pesados: cava, plantio,
adubação, trato das vinhas e lagaragem. O trabalhador
rural vestia fato de surrobeco, cinta e barrete preto. O campino,
ex-libris da lezíria, em dias festivos ou de gala, vestia
camisa branca de coloreta e frentes bordadas, colete encarnado
bordado a preto, calção de veludinho roxo ou azul
escuro, meia branca de renda, sapato de prateleira, cinta e barrete
verde.
A caminho do trabalho seguiram em grupos, não se juntando
as mulheres com os homens, elas entoando canções.
O Casamento era o acontecimento mais importante da vida das gentes
do campo: o fato novo, o baile, a mesa farta, etc. O almoço
da boda era constituído por sete ou oito pratos diferentes,
sendo servido em primeiro lugar o tradicional «cozido».
A doçaria era constituída pelo bolo branco, bolo
de mel e arroz doce, que não podia faltar, sendo uma especialidade
tradicional.
A maneira de falar apresentava também influências
de outras gentes, empregando-se termos autóctones, como
por exemplo:
- «Trincha», que significava
utensílio;
- «Mata ratos», significava
tabaco ordinário;
- «Galhabano», queria
dizer rapaz;
- «Atarrafaria», a lida
doméstica;
- Os «Trastes», os móveis.
A casa rural, de divisão única, era simples, tal
como o mobiliário que a compunha: o amparo, o poial dos
potes, os bancos, os mochos, a estanheira, a salgadeira, a mesa
baixa de gaveta, a cama de ferro e o caixão para a roupa.
Não sabiam ler nem escrever, na sua maior parte, pois a
instrução era coisa de quem tinham posses e dinheiro.
Os nobres e os burgueses endinheirados pertenciam a outra classe:
A maneira de vestir era diferente, tanto no homem como na mulher.
O homem vestia calça justa, jaqueta e chapéu de
abas largas e direitas. A mulher vestia blusa e saias rodadas
até ao tornozelo e calçava botinas.
A maneira de falar era também diferente, procurando utilizar
termos mais de acordo com a linguagem escrita, pois a sua condição
e posses davam-lhes a possibilidade de terem acesso ao ensino.
As casas tinham um ar senhorial, grandes e requintadas, dispondo
quase sempre de dois ou três pisos, distribuídos
em divisões grandes e amplas e o mobiliário era
de acordo com a época e o estilo da casa. Para cuidar da
lida caseira e da lavoura o «senhor» tinha ao seu
serviço os criados.
Havia o «abegão», que recebia as ordens do
patrão e era pago à semana. O «ganhão»,
que trabalhava anualmente, recebia muito pouco dinheiro e era
compensado em géneros (farinha, azeite, um porco gordo
no fim do ano, etc.); só pelo São Miguel (fim de
Setembro) a remuneração era maior para que pudesse
comprar na feira aquilo de que mais necessitava.
O «senhor da terra» tinha também ao seu serviço
para cuidar do gado o «maioral» ou «moiral»,
o «contra-maioral» e os «moços»
(crianças que ajudavam a guardar e manter o gado junto).
Os «capatazes» recebiam as ordens do «abegão»,
governavam os ranchos de homens e mulheres, admitidos ao serviço
apenas quando era necessário.
A maneira de vestir está hoje totalmente ultrapassada.
No campo da habitação, embora com uma modificação
mais lenta, as casas passaram a ser maiores e mais confortáveis,
encontrando-se ainda hoje a casa típica nalguns pontos
do concelho. Quanto às antigas casas senhoriais, elas fazem
hoje parte do património arquitectónico de Coruche.
O vestuário, as danças e os cantares são
recordados através dos ranchos folclóricos existentes:
- Rancho Folclórico Regional
do Sorraia (Bairro da Areia);
- Rancho Folclórico da Branca
(Foros da Branca);
- Rancho Folclórico Malmequeres
do Sorraia (Couço);
- Rancho Folclórico «Os
Camponeses» (Santana do Mato);
- Rancho Folclórico «Os
Arrozeiros do Sorraia» (Santa Justa)
- Rancho Folclórico «As
Mondadeiras do Sorraia» (Rebocho);
- Rancho Folclórico da Fajarda
(Fajarda);
- Rancho Folclórico da Lamarosa
(Lamarosa);
- Rancho Folclórico «Os
Campinos do Sorraia» (Azervadinha);
- Rancho Folclórico «Espiga
Dourada» (Volta do Vale).
Apesar dos hábitos adquiridos, este povo não esquece
aquilo que aprendeu com os seus avós e continua a arrastar
consigo velhas rezas e superstições, principalmente
no campo da medicina popular.