A fundação de Abrantes integrou-se numa estratégia
de povoamento e de defesa que compreendeu a margem norte do Tejo,
determinando o seu traçado urbano futuro.
Esta característica de defesa inscreve-se na particularidade
da topografia do próprio núcleo, já que se
desenvolverá a partir de cota elevada.
O Tejo será nesta primeira fase uma fronteira natural em
termos de estratégia militar, já que virá
a permitir o controlo, na horizontal, de uma vasta região,
impedindo por um lado as investidas muçulmanas para o norte
e, por outro reforçará a Reconquista Cristã.
Mas o Tejo revelou-se também vulnerável às
pressões Islâmicas e nesse sentido, Afonso Henriques
e Sancho I viram-se obrigados a recorrer a Ordens Militares com
o objectivo de consolidarem a defesa dessa área. Prova
disso é a doação de termo de Abrantes, em
Setembro de 1173, à Ordem de São Tiago. O documento
da doação revela também as fronteiras de
Abrantes na época, definindo o seu termo:
estendia-se para Oriente até quase à fronteira actual,
abrangendo terras que mais tarde passaram para o senhorio das
ordens o Templo e do Hospital, prolongando-se também ao
longo do curso do Tejo, não ultrapassando a jusante, a
foz da linha do Zêzere.
Do ponto de vista militar, no século XII, Abrantes centraliza
toda a sua importância, porque conjuntamente com Santarém,
Tomar, Torres Novas e Leiria, faz parte da chamada Confederação
de Vilões, que garantirá eficazmente até
finais desse século a defesa dos vitais territórios
conimbricences.
Também nessa época começa a ser visível
o incremento que terão as comunidades rurais. Centralizadas
em núcleos importantes, a agricultura e a pesca começam
a assumir-se como as principais actividades económicas,
mas a função defensiva norteará a grande
primeira necessidade, condicionando a implantação
da estrutura amuralhada num local dificilmente expugnável,
usando o leito do rio Tejo como obstáculo natural ao inimigo
muçulmano.
Por isso sublinhe-se, o perfil de Abrantes é, no século
XII, inequivocamente militar.
Observando a tipologia, a dominante é a estrutura nuclear,
tal como sucede com outras vilas medievais Portuguesas, isso porque
o núcleo se forma a partir do Castelo, elemento aglutinador.
Em 1176 encontramos referência à freguesia de São
João Baptista e em 1224 à de São Vicente,
Santa Maria do Castelo é certamente coeva da construção
do próprio Castelo. Estas estruturas virão a influenciar
o tecido urbano. A mesma característica permanecerá
para os séculos XIII e XIV, actuando agora como novos elementos
aglutinadores as Igrejas de São Tiago e de São Pedro.
A defesa entendida como necessidade vital norteou o desenvolvimento
urbanístico numa primeira fase.
Se, por um lado, o Castelo e as freguesias de São João
e São Vicente assumiram preponderância sobre o núcleo
urbano, também é verdade que a partir do século
XIII outra dinâmica ditou a animação de Abrantes
e esta foi a fixação de instituições
religiosas. Estas estruturas eclesiásticas terão
estado na base de um crescimento organizado e cívico da
vila.
É, pois, facilmente defensável que o Castelo tenha
deixado de ser, nos séculos XIV e XV, polo centralizador
da vida urbana, passando a ser um centro de refugio em ocasiões
de guerra.
Sabe-se que para o século XIV os centros polarizadores
da vida urbana estavam determinados pelas Igrejas de São
João, São Tiago, São Vicente, pela Casa da
Câmara e, eventualmente, pela Igreja de São Pedro.
Assim, durante os séculos XIII e XV a leitura da vila apresenta-se
nos seguintes moldes: num local elevado o Castelo e a Igreja de
São Tiago, onde inúmeras vezes se reunia o Concelho;
num local mais central as duas Igrejas paroquiais, São
João Baptista e São Vicente, um convento de Cónegos
Regrantes de Santo Agostinho e a Casa da Câmara, elementos
geradores de uma nova polarização urbana originando
a criação de núcleos habitacionais e de vias
que se entrecruzam organicamente.
No plano económico o Tejo assumiu em todas as épocas
um importante protagonismo. Diversa documentação
prova a existência de um importante porto fluvial em meados
do século XIV; em 1361 tem-se conhecimento do transporte
de sal feito através do porto de Abrantes e em 1393 são
divulgadas posturas regulamentares referentes aos canais de pesca
do Tejo, que aliás, haviam merecido medidas proteccionais
por parte do nosso primeiro Rei. A via fluvial que o Tejo representava
é um factor do maior relevo para a actividade comercial.
Por ele fez-se o abastecimento de feiras e mercados que foram
estruturas de encaixe da produção agrícola,
permitindo a concentração dos produtos no centro
urbano.
O Tejo foi então um elemento estruturante da vida urbana
ao proporcionar o desenvolvimento a dois níveis:
- Agrícola, porque proporcionou o incentivo à produção
cerealífera, vincula e oleícola;
- Comercial, porque se acentuaram os contactos com Santarém,
Lisboa e outras povoações ribeirinhas. Por carta
de 1381, D. Fernando autoriza que os barqueiros de Abrantes possam
transportar desde Lisboa, rio acima, sem qualquer embargo, sal,
ferro, armas e outros produtos.
De entre estas mercadorias o sal foi de facto de grande importância
na economia de Abrantes, como o atesta um documento de 1406. A
sua comercialização era feita em grande escala com
as povoações vizinhas, como nos revela uma petição
da Câmara de Abrantes efectuada em 1587. De resto, já
em meados do século XIV havia no Tejo um porto destinado
exclusivamente às Barcas do Sal.
Apesar deste eixo ordenador, Abrantes nunca foi um centro comercial
importante. A agricultura assumiu sempre um papel preponderante
e como actividade subsidiária desta, registe-se o avultado
número de engenhos de moagem existentes em Rio de Moinhos
e que ficaram registados na toponímia medieval.
À semelhança de outras vilas de idênticas
dimensões, Abrantes assiste no século XVI ao alargamento
do seu burgo. A vila expande-se para terrenos adjacentes, nascem
novas estruturas que vão agir como factores inovadores
de desenvolvimento, tornando-se marcante a fixação
de conventos de ordens mendicantes, como são os casos do
Convento de Santo António, com a sua primeira fundação
em 1526, na Ribeira da Abrançalha e a segunda fundação
(posterior a 1517) em Vale de Rãs, bem como o Convento
de Nossa Senhora da Esperança, com a primeira fundação
em 1548 e a segunda em 1576. Conclui-se neste século a
edificação do Convento de São Domingos (1517)
e do de Nossa Senhora da Graça (1548). É instituída
a Santa Casa da Misericórdia entre 1530 - 1532, anexando
o Hospital do Salvador, fundado cerca de 1483.
Por esta altura a vila compreende uma estrutura administrativa
organizada, salientando-se que, contrariamente à vontade
expressamente manifestada pelos oficiais da Câmara de Abrantes.
D. João III determina, por carta régia de 1536,
a existência de Juiz de fora em Abrantes. De resto, durante
o reinado de D. João III, são diversos os conflitos
surgidos entre a Câmara de Abrantes e a coroa, todos eles
motivados pela intromissão do Rei nas prerrogativas municipais.
A vila reunirá, ao nível da sua rede social, nobres,
clérigos, mercadores e artífices, aos quais devemos
juntar grupos mais activos de origem plebeia, tais como funcionários,
membros de profissões liberais, comerciantes e artesãos,
que pontuarão os efectivos humanos eminentemente ligados
à actividade agrícola.
Esta ordem social, sujeita aos ritmos de mobilidade, com mais
ou menos poder e influência, com ou sem estruturas organizadas
de intervenção ou de pressão, molda-se no
Absolutismo, participa na Gesta da Expansão e sofre a influência
do domínio Espanhol.
No século XVI a vila detinha já uma significativa
importância patenteada pela existência de quatro conventos
de ordens religiosas, mais de uma dúzia de Igrejas e ermidas,
hospital, casa da Misericórdia, gafaria e judiaria. Foi
naturalmente na zona de implantação destas estruturas
que se gerou o fenómeno de grande dinâmica e animação.
A ordem social, o poder político e religioso localizados
nesta zona conferem a Abrantes, no século XVI, uma assumida
identidade.
Ao carácter defensivo que norteou inicialmente a Vila,
soma-se agora a importância administrativa, económica,
política, religiosa e cultural, tornando-se assim ponto
de partida para uma expansão urbana. Não fugindo
à onda da expansão, Abrantes aufere de uma grande
dinâmica fluvial e de permanentes contactos com Lisboa,
participa na Gesta Ultramarina com os seus homens e com fonte
de matéria prima para a construção naval.
De 1596 até 1649 existem bastantes documentos que comprovam
as necessidades sentidas pelo reino na obtenção
de madeira para a construção naval. O primeiro documento,
datado de 1696, ordenava o plantio de árvores em Abrantes
e no seu termo para esse fim. Em 1607, uma provisão de
Filipe II ordenava o corte de madeira nas matas de Abrantes para
o mesmo fim. Um documento de 1630 alude ao transporte de grande
quantidade de madeira para Lisboa e neste ano é determinado
o corte de setecentos pinheiros necessários à construção
e reparação de naus destinadas à Índia.
A madeira era transportada directamente, rio abaixo, até
Lisboa, como nos revela outro documento do mesmo ano.
Como numa vila do interior, colocada um pouco à margem
dos lucros ditados pelo comércio marítimo, os abrantinos
asseguram as tarefas vitais da lavoura, vivendo uma nova fase
de arroteias e de cultura cerealífera. Nestas tarefas vitais
inscrevem-se também a criação de gado, a
pastorícia e a actividade artesanal e industrial à
escala doméstica.
Quanto a este último aspecto conhece-se a existência
de uma fábrica de sabão em fábrica de sabão
em 1606. Em 1637 é conhecida uma fábrica de curtumes
e, um requerimento de finais do século XVII alude a diversas
carvoarias existentes em Abrantes, a um forno de vidro e diversos
de cal.